domingo, 28 de março de 2010

Poema de sete faces - Drummond


Poema de sete faces






Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.







As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.







O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.







O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos , raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.







Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.







Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo,

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.







Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo

A Lágrima - Guerra Junqueiro


A Lágrima




Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada,

Sêca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.



Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha,

Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.



Sôbre uma folha hostil duma figueira brava,

Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,



A aurora desprendeu, compassiva e divina,

Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.



Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la,

De perto era um diamante e de longe uma estrêla.



Passa um rei com o seu cortejo de espavento,

Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.



- "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar,

Há safiras sem conta e brilhantes sem par,



"Há rubins orientais, sangrentos e doirados,

Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.



"Há pérolas que são gotas de mágua imensa,

Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.



"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir,

Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir



"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema,

Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"



E a lágrima deleste, ingénua e luminosa,

Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.



- - -



Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,

Passa no seu ginete um cavaleiro andante.



E o cavaleiro diz à lágrima irisada:

"Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!



"Far-te hei relampejar, de vitória em vitória,

Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!



"E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro,

Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.



"E assim alumiarás com teu vivo esplendor

Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"



E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,

Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.



- - -



Montado numa mula escura, de caminho,

Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.



Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:

Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.



E o velhinho andrajoso e magro como um junco,

O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,



Vendo a estrêla, exclamou: "Oh Deus, que maravilha!

Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!



"Com meu oiro em montão podiam-se comprar

Os impérios dos reis e os navios do mar,



"E por esse diamante esplêndido trocara

Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"



E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,

Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.



- - -



Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,

Já ressequido, disse à lágrima celeste:



"A terra onde o lilaz e a balsamina medra

Para mim teve sempre um coração de pedra.



"Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,

O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.



"Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos,

Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.



"Nunca junto de mim ranchos de namoradas

Debandaram, cantando, em noites estreladas...



"Voa a ave no azul e passa longe o amor,

Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...



"Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água,

Cai na desolação desta infinita mágoa!"



E a lágrima celeste, ingénua e luminosa,

Tremeu, tremeu, tremeu... e caíu silenciosa!...



- - -



E algum tempo depois o triste cardo exangue,

Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue,



Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito,

Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...



E ao cálix virginal da pobre flor vermelha

Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...

.





Guerra Junqueiro

25 de Março de 1888

domingo, 21 de março de 2010

Considerações sobre o sono - Antonio Maria

Considerações sobre o Sono




Antônio Maria





A pessoa que dorme está inteiramente só. *** Quando o homem dorme, o seu rosto se desmarca de todas as tramas e de todos os desgostos. *** Nada enternece mais uma mulher que o rosto do amante, dormindo. *** Ela se debruça sobre a face do amado e descobre que eram simples palavras todas as valentias que ele lhe vinha dizendo ou dando a entender. *** É quando a gente se parece menos com os mortos... é quando se está dormindo. *** Quanto mais pobre mais comovente o ser humano que dorme. *** No sono, a imobilidade das pessoas boas e confiantes é sempre desarrumada. *** Gente má dorme em posição de sentido. ***Cada travesseiro tem um lugar e uma importância definidos na vigência do sono. *** Não há nenhum abandono casual, nas pernas, nos braços ou na cabeça de quem dorme, porque o corpo realiza, desde que haja espaço, sua única posição realmente confortável. *** Experimente descobrir na mulher que dorme a seu lado, um ser infinitamente decente, muito além de sua capacidade de fazer-lhe uma razoável justiça. *** Quanta luz nos corpos despidos das mulheres claras! *** Seria uma demasia de requinte ou de louvação, fazê-las dormir sobre lençóis negros? *** A mais leve carícia de sua mão sobre o corpo da amada que dorme poderá quebrar a solidão do sono e a tranqüilidade da carne já não seria completa (contente-se em enternecer-se, sem tocá-la). *** Se for preciso despertá-la, que seja com ruídos aparentemente casuais. *** Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela! *** Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança. *** A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens. *** Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança. *** Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta. *** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes.



Rio, 17/1/1956





Texto extraído do livro "O Jornal de Antônio Maria", Editora Saga - Rio de Janeiro, 1968, pág. 42.

terça-feira, 2 de março de 2010

AH! OS RELÓGIOS. MARIO QUINTANA

AH! OS RELÓGIOS




Amigos, não consultem os relógios

quando um dia eu me for de vossas vidas

em seus fúteis problemas tão perdidas

que até parecem mais uns necrológios...



Porque o tempo é uma invenção da morte:

não o conhece a vida - a verdadeira -

em que basta um momento de poesia

para nos dar a eternidade inteira.



Inteira, sim, porque essa vida eterna

somente por si mesma é dividida:

não cabe, a cada qual, uma porção.



E os Anjos entreolham-se espantados

quando alguém - ao voltar a si da vida -

acaso lhes indaga que horas são...



Mario Quintana - A Cor do Invisível

FERNANDO PESSOA - GUARDADOR DE REBANHOS - VII - HETERONOMIO DE ALBERTO CAEIRO


Alberto Caeiro




VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera





Num meio-dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras.

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.



Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!



Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.



Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas pelas estradas

Que vão em ranchos pela estradas

com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.



A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as cousas.

Aponta-me todas as cousas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.



Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

"Se é que ele as criou, do que duvido" —

"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

Mas os seres não cantam nada.

Se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres."

E depois, cansados de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

e eu levo-o ao colo para casa.

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Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.



E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.



A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.



A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.



Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos e dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.



Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.



Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos-mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do sol

A variar os montes e os vales,

E a fazer doer nos olhos os muros caiados.



Depois ele adormece e eu deito-o.

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.



Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos.

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

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Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

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Esta é a história do meu Menino Jesus.

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

momento num café - manuel bandeira

Momento num Café

Quando o enterro passou


Os homens que se achavam no café

Tiraram o chapéu maquinalmente

Saudavam o morto distraídos

Estavam todos voltados para a vida

Absortos na vida.



Um no entanto se descobriu num gesto longo e demorado

Olhando o esquife longamente

Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade

Que a vida é traição

Esaudava a matéria que passava

Liberta para sempre da alma extinta.

retrato - cecilia meireles

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.



Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.



Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

a minha face?